Bandeiras semelhantes, carreira diferente. Bolsonaro é o Trump brasileiro?

Luis Kawaguti

Do UOL, em São Paulo

  • Arte/UOL

Nacionalista, conservador, polêmico, crítico da imprensa e defensor de bandeiras como o armamento do cidadão e a imposição de barreiras à imigração. Essa é a descrição do presidente americano Donald Trump, mas pode servir também para retratar um pré-candidato brasileiro: Jair Bolsonaro.

Quando comparado a Trump pela imprensa internacional, o deputado pelo PSC-RJ e ex-militar afirmou em redes sociais que é diferente do americano. "Há uma diferença enorme entre ele e eu", disse em vídeo postado no Facebook em dezembro de 2017. "Nos rotulam de populistas e também de extrema direita. Nós não somos isso", afirmou.

O UOL ouviu especialistas estrangeiros e brasileiros para discutir as semelhanças e diferenças entre os dois políticos e para perguntar: Bolsonaro é o Trump brasileiro?

"Não. Mas há similaridades entre Trump e Bolsonaro. Nos Estados Unidos as pessoas tiveram décadas de Bushes e Clintons e no Brasil é o mesmo establishment (PT e PSDB) desde 1994. O Bolsonaro é uma quebra dessa representação dual", disse Brian Winter, editor da revista Americas Quarterly e especialista do centro de pesquisas Americas Society/Council of the Americas.

American University/Divulgação
Matthew Taylor, brasilianista da American University
Matthew Taylor, professor e especialista em América Latina da American University, de Washington, também não vê o deputado brasileiro como uma reprodução do presidente americano. Mas aponta a principal semelhança. "É possível fazer um paralelo. O discurso antiestablishment de Trump é refletido no discurso de Bolsonaro", afirmou.

Para Cláudio Couto, coordenador do mestrado de Gestão de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, o cenário em que cada um deles está inserido é fundamental para apontar as diferenças entre os dois. "De alguma forma sim, mas não é possível fazer uma transposição perfeita entre os dois porque Brasil e Estados Unidos têm realidades muito diferentes", disse.

Veja abaixo as principais similaridades e diferenças entre os dois políticos assinaladas pelos três especialistas.

Bandeiras semelhantes

Uma grande semelhança hoje entre Bolsonaro e Trump, segundo os analistas ouvidos pelo UOL, está nas bandeiras defendidas por eles. Entre elas estão a ideia de que os cidadãos têm o direito de se armar, as barreiras contra imigrantes (que ambos justificam como proteção de seus países contra a entrada de extremistas) e a proteção ao mercado local diante do avanço das empresas chinesas.

Mas uma das principais bandeiras que os dois têm em comum é o nacionalismo, que transparece até em seus bordões. Trump usa o "América em primeiro lugar" e Bolsonaro, o "Brasil acima de tudo" - que tem semelhanças com gritos de guerra adotados por algumas unidades militares brasileiras.

Se por um lado esse nacionalismo é associado por seus apoiadores à criação de um sentimento de identidade e patriotismo, por outro é interpretado por críticos como forma de excluir grupos minoritários.

No Brasil, o discurso nacionalista e patriótico atrai a simpatia de policiais, militares e segmentos considerados conservadores na sociedade. Eles tendem a associar o conceito de patriotismo a um conjunto de valores muito citados por esses segmentos ao justificar seus votos: honestidade, família e religião.

FGV / Divulgação
Cientista político Cláudio Couto

Porém, segundo Cláudio Couto grupos radicalizados de apoiadores, tanto nos Estados Unidos como no Brasil, dão ao conceito nacionalista uma interpretação exacerbada que pode ser associada ao neofascismo ou ao fascismo europeu. Nela, o nacionalismo é trabalhado com elementos de violência contra segmentos da sociedade, xenofobia e racismo.

"É uma questão de identidade. Por exemplo, para afirmar valores da família tradicional eles associam ao comunismo a ideia de relativização de valores da família", disse. "Grupos normalmente ameaçados são homossexuais, imigrantes e artistas que pregam valores progressistas", disse. Mas os políticos apoiados por esses grupos adotam discurso mais cauteloso, segundo ele. 

Outra área em que Trump e Bolsonaro convergem é a religião. O americano diz que é cristão presbiteriano e possui nos Estados Unidos o apoio da direita religiosa. Uma parte considerável desse apoio foi garantida com a escolha de seu vice-presidente, Mike Pence, que detinha grande suporte de lideranças cristãs.

Eleito pelo Partido Social Cristão, o brasileiro valoriza o tema da religião em seus discursos nas redes sociais e defende temas importantes para as igrejas evangélicas. Ele chegou a publicar um vídeo no qual aparece sendo batizado no rio Jordão, em Israel em 2016. Sua assessoria de imprensa disse na ocasião a veículos de imprensa que Bolsonaro é católico.

Como Trump, sua candidatura conhecida pelo conservadorismo tem despertado simpatia entre líderes cristãos e evangélicos. Mas a possibilidade de apoio político formal de líderes da bancada evangélica ainda está em discussão.

Redes sociais e relação com a imprensa

As semelhanças entre Bolsonaro e Trump se estendem ao comportamento público, tanto com veículos de comunicação quanto com o eleitorado.

Como Trump, Bolsonaro já reclamou do que considera um comportamento hostil de parte da imprensa. Por isso, ele diz usar as mídias sociais para tentar entrar em contato direto com seus eleitores. Sua página no Facebook tem mais de 5 milhões de seguidores e seu perfil no Twitter é seguido por quase 900 mil pessoas.

Americas Society / Council of the Americas / Divulgação
O brasilianista Brian Winter

"Bolsonaro adota um discurso que funciona muito bem nas mídias sociais: ele é autêntico", disse Winter. Segundo ele, o uso que tanto o brasileiro como o americano fazem das redes sociais contrasta com os tradicionais discursos oficiais, cautelosamente redigidos. Eles falam aparentemente de improviso e assim atraem um eleitorado que se reconhece em suas afirmações.

Para o brasilianista, ambos apresentam suas ideias com liderança e convicção. Dessa forma, se aproximam também de um eleitor que, se questionado individualmente, talvez não dissesse que concorda com determinadas propostas consideradas polêmicas por segmentos da sociedade.

Intrusos na política?

Outra suposta semelhança entre Jair Bolsonaro e Donald Trump é a tentativa de se colocarem como "outsiders", ou seja, alguém de fora da política ou diferente do tipo tradicional. Para Brian Winter, ambos se colocam como críticos do "establishment" político e se apresentam como alternativa a ele.

Nos Estados Unidos, segundo Winter, Trump ganhou de Hillary Clinton após se apresentar como uma opção diferente do revezamento de poder entre as famílias Clinton e Bush, que perdurou por décadas. No Brasil, Bolsonaro tenta se apresentar como a quebra da hegemonia caracterizada por sucessivos governos do PT e do PSDB.

"Mas não sei até quando o Bolsonaro vai conseguir se posicionar como se estivesse fora do sistema. Ele está há muito tempo na política", disse Taylor.

Bolsonaro é parlamentar desde os fins dos anos 1980 e dois de seus filhos também são políticos. "Inegavelmente ele é um político profissional, mas não se alinhou de maneira muito clara aos partidos que pertenceu. Mas também nunca foi expelido pelo establishment", disse.

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ Agência Brasil

Onda conservadora ajudou Trump. E Bolsonaro?

A possibilidade de Bolsonaro embarcar na mesma onda internacional conservadora que atingiu países americanos e europeus nos últimos anos divide os especialistas ouvidos pelo UOL.

A guinada à direita elegeu Trump, do partido Republicano, após oito anos de comando dos Democratas; fortaleceu partidos nacionalistas em países afetados pela crise migratória na Europa – como França, Áustria, Dinamarca e Hungria –; e substituiu presidentes alinhados à esquerda na Argentina e no Peru.

Segundo Winter, essa tendência internacional mostra o descontentamento dos eleitores em diversas partes do mundo contra o sistema em vigor, independentemente do fato de serem de direita ou esquerda.

"Bolsonaro disse sobre o Brasil tudo o que Trump disse sobre os Estados Unidos em 2016, que o crime está crescendo, que a elite é corrupta e que a economia está uma bagunça", afirmou. "Então, há um terreno fértil para Bolsonaro", disse.

Já para Taylor, a mudança nos governos da América do Sul em direção à direita atualmente não é tão clara quanto foi a guinada à esquerda dos anos 2000 – pois presidentes considerados conservadores estão tendo que lidar com muita oposição no Legislativo. "O Brasil muda muito paulatinamente. O presidencialismo de coalizão dificulta a guinada para a esquerda ou para a direita."

Foto: AFP
A vitória eleitoral do presidente Donald Trump surpreendeu seus críticos

Apoio de partidos políticos pode fazer diferença

A diferença de apoio político também separa o presidente do deputado e pode ser fundamental para as pretensões de Bolsonaro. Enquanto Trump é filiado ao partido Republicano, legenda que mais elegeu presidentes nos Estados Unidos, Bolsonaro, que ainda pertence ao PSC (Partido Social Cristão), firmou compromisso com o PSL (Partido Social Liberal), que atualmente conta apenas com três deputados federais e nenhum senador.

Na avaliação de Winter, a campanha de Bolsonaro enfrentará mais obstáculos do que a de Trump. "Nos Estados Unidos há apenas dois partidos. Quando Trump virou o candidato republicano, não restou opção para cerca de 40% da população a não ser votar nele, porque não votariam em um democrata. No Brasil, há mais opções", diz o brasilianista.

O cenário eleitoral mais favorável para Bolsonaro no Brasil é aquele em que ele concorre com Luiz Inácio Lula da Silva, segundo os analistas. Isso porque os dois candidatos representam campos políticos opostos em um momento no qual o PT e o ex-presidente estão enfraquecidos por uma série de casos de corrupção. Em tese, sob essas condições, Bolsonaro teria chances para repetir no Brasil a trajetória de Trump nos Estados Unidos.

Na última pesquisa de opinião Datafolha, Bolsonaro aparece em primeiro lugar na corrida eleitoral, com 18% dos votos em um cenário sem Lula, mas sua vantagem parou de crescer em relação a pesquisas anteriores. "Não tenho certeza se ele ganharia", disse Winter. Porém, segundo o analista, Bolsonaro deve realmente ser considerado um candidato que tem condições de vencer. 

Contudo, o eventual crescimento de um candidato de centro poderia enfraquecer Bolsonaro. Na opinião de Couto, se isso acontecer, Bolsonaro teria que se mostrar mais de direita do que já é para se diferenciar.

"No Brasil é muito difícil para uma pessoa de fora da corrente principal vencer uma eleição, especialmente a presidencial", disse Taylor.

"Sobre a possibilidade de Bolsonaro se tornar vitorioso: vai ser um desafio enorme para ele. Ele é de um partido pequeno e seria difícil construir uma coalizão ampla", completou.

Assista à entrevista de Jair Bolsonaro à TV Bandeirantes

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