Clima em Mato Grosso é tão tucano que até termômetros marcam 45 ºC

Rodrigo Bertolotto

Do UOL, em Cuiabá e Tangará da Serra (MT)

Outubro é o mês mais quente em Mato Grosso, com eleição ou não. A reportagem do UOL filmava o termômetro da prefeitura de Cuiabá marcando 45º C no centro da cidade, quando o estudante de engenharia civil Tiago Henrique passou de carro e gritou: "Olha lá. É Cuiabrasa apoiando o Aécio".

A brincadeira entre a temperatura local e o número de urna do candidato à Presidência Aécio Neves (PSDB) tomou as redes sociais no Estado que deu maioria ao tucano já no primeiro turno das eleições (44,4% contra 39,5% de Dilma Rousseff, do PT).
 
A diferença foi ainda mais marcante nos municípios do norte mato-grossense. Tanto é que a cidade mais aecista do país fica por lá: Alto Boa Vista. O político mineiro teve 82,5% dos votos, contra 14,1% da presidente petista no dia 5 de outubro.
 
A expressiva votação foi turbinada por um conflito local. No município próximo ao rio Araguaia e ao Estado do Tocantins, uma retirada de posseiros de terras xavantes por parte da Força Nacional provocou um sentimento de antipetismo, afinal, a população local associou a ação governamental ao partido atualmente no poder.
 
O cenário de vitória tucana se repetiu nos principais polos do agronegócio – Dilma venceu só em Rondonópolis e por margem apertada, 40% contra 39% do rival. No mapa eleitoral brasileiro, a área mais visível de apoio a Aécio é no norte de Mato Grosso. Se fosse pela fronteira agrícola, a presidência seria do  tucano já no primeiro turno. Lá, ele venceu com mais de 50% dos votos na maioria dos municípios.

Arte UOL
Mapa da votação no primeiro turno mostra como Mato Grosso apoiou Aécio Neves (em azul)

"A falta de infraestrutura por aqui mostra o descaso de Brasília com o nosso campo. As estradas são ruins, as obras não terminam", afirma Cida Nunes, que é pecuarista de Tangará da Serra. Mas há quem contrarie a opinião dominante. "Só picape grandona tem adesivo do Aécio. E eles ainda induzem o povão a votar nele", critica Marcos Marques, taxista na cidade deu 61,2% dos votos para o PSDB contra 24,4% pra o PT.
 
A paisagem muda muito nos 244 quilômetros que separam Cuiabá de Tangará da Serra. Na saída da capital, um morro ostenta condomínios de luxo (um deles promete até uma praia artificial bem no centro da América do Sul) tendo bem ao lado construções do programa "Minha Casa, Minha Vida", uma das vitrines do governo de Dilma.
 
No início da estrada, uma fila de caminhões carrega a safra. A cada buraco, e não são poucos, a jamanta adiante cuspe grãos de soja no parabrisa do carro. O cerrado dá lugar às pastagens, e as vacas usam as poucas árvores como moças usam as sombrinhas para se abrigar do sol.
 
Uma bruma de queimada paira no cenário de palmeiras, zebus e cupinzeiros. Após a subida para o planalto, o horizonte fica totalmente horizontal, um tapete verde da soja a espera das colheitadoras.
 
Tangará da Serra é uma cidade que já esteve na órbita do ex-rei da soja Olacyr de Moraes e agora está sob influência de Blairo Maggi, senador do PR que é a majestade do agronegócio no Estado. Aliado do PT quando era governador do Estado, Maggi até tenta convencer seus pares a não serem tão contrário a candidata petista, mas não consegue.

Os pioneiros agrícolas dos anos 70 são apresentados como desbravadores do Estado, substituindo no pódio os bandeirantes do século 18 que percorreram a área atrás de diamantes e ouro. Nos dois casos, os indígenas entram na história oficial como meros coadjuvantes, quando não são apresentados como vilões que atrapalham o progresso da economia.
 
Hoje, o Estado é um retalho de migrantes, desde colonos na Serra Gaúcha até retirantes do Pará, passando por paranaenses, paulistas, mineiros e nordestinos. O Mato Grosso é o Estado com maior porcentagem de migrantes no Brasil: 38% de sua população é de fora, e essa estatística segue aumentando.
 
Se a economia de Mato Grosso é forte com suas exportações de grãos e carnes, sua importância eleitoral é pouca. Seus pouco mais de dois milhões de votantes representam apenas 1,5% do eleitorado brasileiro. Por isso mesmo foi pouco visitado pelos presidenciáveis. Só Aécio esteve por lá, tomou caldo de cana em Cuiabá e prometeu recursos. Mas isso foi em meados de agosto. Preocupados com os filões de votos do Sudeste e Nordeste, Dilma e Aécio não deram as caras por lá no segundo turno.

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