19/04/2010 - 07h00

Governo Dilma abriria porta para tucanos, diz Marta

Maurício Savarese e Diogo Pinheiro
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Se a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, vencer o presidenciável tucano José Serra em outubro, os governistas tentarão se aproximar do PSDB, seu arquirrival nacional desde 1994. É essa a avaliação que fez a petista Marta Suplicy, ex-prefeita de São Paulo e pré-candidata ao Senado, em entrevista ao UOL Notícias. Segundo a pesquisa Datafolha divulgada no sábado, a petista soma 28% das intenções de voto contra 38% do tucano.

"Mulher normal", Dilma Rousseff está em transição, afirma Marta Suplicy

Marta deve disputar a vaga no Senado que será deixada por Aloizio Mercadante, pré-candidato do PT ao governo do Estado. Caso seja eleita, tem alta chance de ter de lidar regularmente com um governador tucano, uma vez que o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) aparece com ampla vantagem nas pesquisas de intenção de voto, podendo vencer Mercadante já no primeiro turno.

“Até acabar a eleição não se tem essa conversa [sobre aproximação com a oposição]. Mas podemos ter um Brasil diferente. Acho que seria muito interessante essa possibilidade. E eu não vejo a Dilma fechar a porta para uma coisa desse tipo, não”, afirmou Marta. “Mas não adianta perguntar isso agora. Agora são dois pólos, dois projetos. Quadros excelentes existem nos dois lados”, completou.

Potencial coordenadora da campanha de Dilma no Estado de São Paulo, Marta diz que a ex-ministra da Casa Civil tende a equilibrar a disputa com Serra no principal colégio eleitoral do país conforme ficar mais conhecida. Em 2006, mesmo com alta popularidade, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com menos votos de paulistas do que o adversário que derrotou, o tucano Alckmin.

A pré-candidata ao Senado pelo PT disse que tentou se aproximar do PSDB quando se elegeu prefeita da capital paulista, em 2000. “Minha parceria preferencial era com os tucanos. Eles não quiseram fazer. Não sei por quê. Poderia ser sido o embrião de algo diferente”, afirmou ela, que lidera as pesquisas de intenção de voto para ocupar uma das duas vagas de São Paulo no Senado.

No evento de lançamento de sua pré-candidatura no dia 10, Serra afirmou que deseja ser “o presidente da união” e acusou os adversários de tentarem “dividir o Brasil”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, principal fiador da campanha de Dilma, rebateu dizendo que seu governo desfez a divisão anterior entre pobres e ricos no país.

Campanha
Para a ex-ministra do Turismo, a unidade que os oposicionistas buscam já existe “em torno do governo Lula”, cuja aprovação é de mais de 70%, de acordo com pesquisas de opinião. Marta diz que o acirramento inicial da campanha é precoce. “Eu acho que está uma briga de coisas que não interessam o eleitor. Ninguém quer saber se vai dividir o Brasil”, disse.

Após as críticas a Dilma por declarações que geraram reações duras de aliados e de adversários, Marta afirmou que a ex-ministra “mudou de papel” e vai adquirir a experiência eleitoral de que precisa para vencer. “Ela exercia um cargo onde tinha que ser muito firme com as pessoas, porque era para fazer o Brasil funcionar. Ela cobrava de todos os ministérios os grandes projetos. Era um cargo de muita dureza. Se você não é dura, sendo mulher, fazem picadinho de você”, afirmou.

Na semana passada, adversários de Dilma afirmaram que a ministra atacou exilados durante o Regime Militar (1964-1985) por terem saído do país. A presidenciável petista refutou a acusação. Dias antes, em Minas Gerais, a ex-ministra admitiu a possibilidade de receber votos de eleitores do candidato do PSDB ao governo, Antonio Anastasia. Isso irritou Hélio Costa, candidato do PMDB ao Palácio da Liberdade e influente na sigla que deve dar a Dilma seu candidato a vice.

Marta também rebateu as críticas dos rivais que consideram Dilma uma candidata inventada pelo presidente Lula, uma vez que os petistas mais importantes foram abatidos por escândalos. “Vendo o Serra falar, eu pensei que ele é quem inventou o [prefeito de São Paulo, Gilberto] Kassab. E se a turma for cobrar dele agora, como é que fica? A Dilma não está sendo inventada pelo Lula. O Kassab foi inventado.”

Mulher na política
A ex-prefeita, antiga militante da causa das mulheres, afirmou que os partidos ainda têm medo de discutir mais amplamente a questão de gênero. Para ela, uma disputa eleitoral que terá Dilma e a senador Marina Silva (PV-AC) como candidatas ao Palácio do Planalto terá a chance de amenizar esse problema. Contanto que os apoiadores delas se esforcem para debater o assunto.

Confira a íntegra da entrevista com Marta

“Mulher sofre preconceito. Ninguém avalia uma candidata mulher como se avalia um candidato homem”, afirmou. “É difícil você bancar, ainda mais em candidatura à Presidência, uma questão nova. É arriscado fazer uma campanha que priorize ser mulher.”

Marta afirmou que Lula há muitos anos pensava em indicar uma mulher para sua sucessão. Questionada sobre se era essa candidata na mente do presidente, respondeu: “Política é muito conjuntura. São várias situações que levam você a ser a pessoa certa, no lugar certo”, disse. “Dilma, que esteve ao lado do presidente em todos esses anos, é isso.”

Também por conta das dificuldades nos últimos anos, a ex-prefeita afirmou que pensou em desistir da política. Depois da eleição na prefeitura em 2004, perdeu a reeleição em 2004, a disputa interna com Mercadante para ser candidata ao governo do Estado e a tentativa de ser prefeita novamente em 2008.

“Não vale a pena eu desistir da política. Eu cheguei a pensar mesmo. Mas eu gosto. Você não sabe como é bom você poder fazer as coisas. Não tem nenhum dia que eu fosse visitar os CÉUs em São Paulo que eu não entrasse no carro e não fosse chorando até o próximo lugar. É uma emoção. No Senado você também tem condição de fazer muita coisa pelo seu país”, afirmou, em referência às escolas que construiu.

Ex-deputada, Marta disse que é “melhor de execução”, por perfil, e que terá de “aprender muito” para ser senadora. “Eu sou boa de debate também. Mas não é a minha expertise”, comentou.

Ex-colega de ministério de Dilma, Marta afirmou que “troca ideias” sobre moda com a ex-chefe da Casa Civil. Interlocutores da presidenciável petista dizem que ela recebeu dicas para se vestir mais vezes com roupas da cor lilás, que remete à causa das mulheres. A ex-prefeita disse que concorda com uma avaliação do estilista Alexandre Hercovich sobre o estilo da favorita de Lula para sucedê-lo.

“Ele disse: ‘Deixa ela se vestir do jeito que quiser porque conecta com o povo. Ela se veste como as pessoas se vestem’. É importante isso. É o jeito dela, o estilo dela. Ela representa bem como a mulher brasileira normal, no cotidiano, se apresenta”, comentou Marta. “Isso pode ser bom para uns, mau para outros. Mas se conseguir tirar o quesito roupa, para a mulher é uma bênção.”

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